Por Helio de Carvalho
A proibição dos cassinos no Brasil é uma questão que remonta ao período da ditadura militar, quando, em 1946, o então presidente Eurico Gaspar Dutra sancionou a medida que vetou os jogos de azar em todo o território nacional. A decisão, no entanto, foi fortemente influenciada por sua esposa, a ex-primeira-dama Carmela Dutra, conhecida por sua devoção à Igreja Católica, que considerava os cassinos uma fonte de "pecado" e "perdição moral". Sob essa justificativa moralista, o Brasil fechou as portas para um setor que, em muitos países, se consolidou como pilar do turismo, da geração de empregos e do desenvolvimento econômico.
Em contraste, nos últimos anos, o país viu uma crescente liberalização de outro tipo de jogo: as apostas esportivas, também conhecidas como "Bets". Com a regulamentação aprovada em 2018 e sua popularização através de plataformas digitais, as Bets rapidamente se tornaram uma febre nacional. Em 2023, esse mercado chegou a movimentar cifras superiores a R$ 100 bilhões. Contudo, embora o volume de apostas seja astronômico, a geração de empregos diretos nesse setor é mínima, dado o caráter digital e automatizado dessas operações. As plataformas, muitas delas sediadas no exterior, oferecem poucas oportunidades de trabalho locais e contribuem de forma modesta para a economia real do país.
Por outro lado, os cassinos, que continuam proibidos em solo brasileiro, representam uma oportunidade gigantesca de desenvolvimento econômico e geração de empregos. Em destinos internacionais, como Singapura, Las Vegas e Mônaco, os cassinos são mais do que simples locais de jogo: são complexos de entretenimento completos que incluem hotéis, centros de convenções, restaurantes e espetáculos, criando uma cadeia de valor que impulsiona não só o turismo, mas toda a economia local. O exemplo do Cassino Marina Bay Sands, em Singapura, é emblemático. Inaugurado em 2010, o empreendimento gerou milhares de empregos, tanto diretos quanto indiretos, e consolidou a cidade-Estado como um dos principais destinos turísticos do mundo. Las Vegas, nos Estados Unidos, é outro caso de sucesso, sendo a capital mundial dos cassinos, responsável por gerar bilhões de dólares em receita e sustentar uma rede robusta de empregos em hotelaria, serviços e entretenimento.
A manutenção da proibição dos cassinos no Brasil, um país com potencial turístico invejável, especialmente em regiões como o litoral e cidades históricas, levanta questionamentos sobre a lógica das autoridades. Enquanto as apostas esportivas on-line prosperam, sem contrapartidas significativas para a geração de empregos ou o desenvolvimento do turismo, a possibilidade de explorar o modelo de cassinos como um motor econômico permanece estagnada.
É claro que a regulamentação dos cassinos exigiria um debate responsável, com foco em medidas de controle para evitar os males associados ao jogo. No entanto, a discrepância entre a liberação das Bets e a proibição dos cassinos expõe uma contradição nas políticas públicas brasileiras. O país continua a abrir mão de uma oportunidade de ouro para fomentar seu potencial turístico e gerar milhares de empregos, enquanto grandes potências globais colhem os frutos de seus empreendimentos no setor.
___________
Apoie o Em Destaque seguindo o site e as redes sociais deste jornal que virou fonte de notícias do Google News, e que há mais de dois anos disponibiliza conteúdo nos principais tocadores de podcasts. Em Destaque, o jornal local sem fronteiras para a notícia!