Neste ano de 2024, uma das mais icônicas obras do Brasil completa 40 anos de construção: o Sambódromo da rua Marquês de Sapucaí, ao lado da histórica Praça Onze, na região central do Rio de Janeiro. Inicialmente batizada como Avenida dos Desfiles, ela também é conhecida pelo nome da praça existente em seu final, a Apoteose.
Construída em poucos meses, entre 1983 e 1984, ela levou em seu cerne a marca de seu construtor: a polêmica. O governador era Leonel Brizola, fundador do PDT, eleito em 1982 mesmo com a máquina dos governos de João Figueiredo e Chagas Freitas rodando intensamente em seu desfavor, em um pleito marcado por esquemas de fraude e desvios de votos.
Mas contra Brizola havia, ainda, outro poder: o da comunicação, e neste sentido foi iniciada uma disputa de narrativas sobre a construção da passarela do samba. Um famoso jornal carioca comparava a obra, idealizada pelo vice-governador Darcy Ribeiro e projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, com o cemitério de Sucupira, fixação doentia do personagem Odorico Paraguaçu, interpretado por Paulo Gracindo na novela “O Bem Amado”. Alguns políticos, inclusive do campo da esquerda, ganhavam espaço em diversos veículos da mídia com afirmações do tipo: “não vai ficar pronta a tempo”, “a obra está superfaturada”, “vai cair”, e até mesmo as juntas de dilatação entre os módulos das arquibancadas ganharam protagonismo como “rachaduras”. Mesmo com a sórdida campanha contrária, o Sambódromo ficou pronto para o carnaval de 1984, mas em seguida veio a segunda parte da trama: o boicote.
A principal emissora que transmitia o carnaval carioca não demonstrou interesse, e sua principal concorrente, a extinta TV Manchete, concordou em realizar a cobertura do primeiro carnaval no novo Sambódromo, que superaria os meses de transtornos do atabalhoado monta-e-desmonta de arquibancadas tubulares e deixaria um legado cultural permanente para a cidade. O resultado era esperado: a maior audiência da história da emissora de Adolpho Bloch foi naquele carnaval, em que a Mangueira e a Portela foram campeãs.
40 anos depois, verificamos que o problema, de fato, não era o Sambódromo, mas a preocupação com o futuro legado de um político de origem pobre, órfão de um camponês assassinado ainda em sua primeira infância, que andarilhou as ruas de Porto Alegre em busca de oportunidades e viu na educação a sua principal ferramenta de emancipação. Um político que veio do nada e, como tal, projetou sua trajetória em benefício de seus semelhantes, os marginalizados e excluídos, incomodando uma elite com raízes coloniais.
Neste ano, também marcado pelos 20 anos de seu falecimento, independentemente de ódios e amores, devemos reconhecer que, mesmo com suas contradições, o Rio seria muito melhor se o seu legado de realizações fosse continuado, principalmente em relação aos CIEPs e à educação em tempo integral. Lula já admitiu e fez sua autocrítica. Falta agora a emissora do Jardim Botânico, e a esquerda da praça São Salvador.
(Foto manchete: Rafael Cartacione | RioTur)
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