A
deposição do presidente João Goulart por meio do golpe militar que instaurou a
ditadura no país do Carnaval, foi o que determinou 21 anos de desespero à
democracia. E, pela primeira vez, ouvimos a versão feminina dos acontecimentos
dentro de um dos maiores presídios políticos do país, que torturou, matou e
sumiu com muitas pessoas ao decorrer deste tempo.
Não
estavam à espera de um príncipe em seu cavalo branco para salvá-las, é isso que
Ana Maria Ramos Estevão alega quando ela e suas companheiras de cela renomearam
a Torre das Donzelas, do Presídio Tiradentes, para Torre das Guerreiras.
Ana
Maria, nos tempos mais obscuros do Brasil, era estudante de Serviço Social
envolvida com o movimento estudantil e a organização Ação Libertadora Nacional
(ALN). E para que as pessoas jamais esqueçam o que houve na ditadura,
principalmente, com as mulheres, escreve a sua história que se entrelaça com
tantas outras como a da ex-presidenta Dilma Rousseff, prefaciadora de Torre das
Guerreiras e outras memórias, livro publicado pela pelo selo 106 Memórias
(Editora 106), em colaboração com a Fundação Rosa Luxemburgo.
Muitas
pessoas devem perguntar, o que a Ditadura Militar queria? Em tese, evitar o
avanço das organizações populares do Governo de João Goulart, acusado de
comunista; a derrubada do trabalhismo.
O
que a ditadura conseguiu? A cessão da democracia, o fim da escolha da população
pelos seus governantes, além de tortura e muita morte, como relata Ana Maria em
sua obra.
Capturada
pelos órgãos de repressão da ditadura brasileira, a autora foi torturada e
interrogada por sua trajetória como militante. Ela mistura na obra as
suas memórias com histórias vistas e ouvidas, destaca e valoriza episódios de
que só a grandeza humana é capaz, como quando todas as militantes ficavam em
silêncio para Tânia, uma das prisioneiras, cantar perto de uma pequena janela
para ser ouvida por seu companheiro, Gabriel, que, com câncer, estava preso no
mesmo local, em uma cela distante.
Além
de todos os sentimentos embutidos, relata as torturas, pessoas com papéis
importantes do lado da resiliência como também do lado dos carrascos, bem como
os fascistas voluntários.