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Como lidar com autistas em sala de aula

Como lidar com autistas em sala de aula

08/02/2019 19:11:00 | Rio de Janeiro | Fonte: Jornal em Destaque




 



 



Por Janaina Spolidório



 



O
acesso de uma criança autista à escola é um direito garantido por lei. Mas,
para que essa experiência seja realmente inclusiva, é importante que a escola e
o educador estejam bem preparados e informados.



 



Tecnicamente
o autismo hoje é chamado de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Ao tratar
essa condição de saúde como “espectro”, a ciência evidencia o fato de que não
existe um único tipo de autismo; ao contrário, há tantos níveis diferentes de
comprometimento que sua manifestação em cada pessoa é tratada como única. Em
geral, entretanto, pessoas que se enquadram no espectro têm três importantes
áreas do desenvolvimento humano afetadas: as habilidades socioemocionais, a
atenção compartilhada e a linguagem.



 



INFÂNCIA



Durante
a infância, a manifestação mais evidente do autismo está no comportamento da criança.
Ainda bebê é possível notar alguns sinais, como por exemplo um olhar mais
distante do que o habitual, uma certa apatia. Outro indicador é a criança se
mostrar incomodada por algum som específico ou pelo toque de outra pessoa. O
maior sinal, entretanto, é uma grande falta de interesse por situações sociais,
em geral, uma vez que a socialização é a parte mais afetada.



 



ROTINA



Para
se sentir confiante a participar do ambiente escolar, a criança autista precisa
que a escola estabeleça para ela sequências de ações, rotinas. É importante que
o autista perceba cada parte da rotina. Grande parte dos autistas tem
dificuldade de comunicação e, quando este é o caso, a escola pode trabalhar com
os livros adaptados que, com figuras de rotinas e ações, ajudam o autista a se
comunicar. Claro que há outros recursos e estratégias. Cada criança tem suas
próprias características e necessidades. Um caso pode ser diferente do outro
porque também há graus diferentes de autismo (leve, médio e moderado). O grau
leve é mais difícil de detectar na infância e tem uma forma de lidar totalmente
diferente dos níveis de comprometimento médio ou moderado. Existem escolas
especiais para esta condição, mas o convívio em classes regulares deve ocorrer
logo de início, mesmo que com menor tempo de permanência na escola.



 



AMIZADES



O
autista tem dificuldade em ter amizades, mas elas são importantes para ele. O
problema, na verdade, é que ele não consegue compreender alguns aspectos que
fazem parte dos laços de amizade. É comum que o autista mantenha pouquíssimos
amigos em ambiente escolar ou de trabalho. Para que o autista tenha relações de
amizade é preciso que sinta empatia, afinidade com a pessoa, que os laços de
amizade sejam muito fortes. Mesmo assim, quando uma outra pessoa, com menor
afinidade, entra em seu grupo de convívio, ele tende a se fechar, pois não
consegue encontrar facilmente situações comunicativas com a pessoa
"nova". Ele precisa conhecer e se acostumar com suas amizades. Embora
a socialização seja difícil, o autista sente, dentro de si, a necessidade de
convívio, especialmente no grau leve. Nos graus médio e moderado é importante a
presença de amigos, mas o tipo de necessidade é um pouco diferente, pois as
perspectivas sociais também são distintas. De qualquer forma, é de grande
importância que o autista tenha amizades, porque ele precisa de convívio
social. Apesar de ser difícil para ele, o autista precisa aprender como
funcionam relações entre as pessoas e, sem as amizades, isto fica quase
impossível.



 



LIDANDO
COM O PRECONCEITO



Grande
parte das pessoas acaba tendo realmente preconceitos em relação ao autista por
não saber lidar com aqueles comportamentos considerados estranhos. É importante
ensinar o autista a lidar com situações diversas em relação às pessoas que o cercam,
especialmente estas, com maiores preconceitos. Para ensinar é preciso fazê-lo,
primeiramente, entender o ponto de vista das pessoas. Muitas vezes, o autista
vê o comportamento, mas não entende o motivo de ele acontecer. Dependendo da
situação, o autista nem percebe o preconceito. Uma grande dificuldade para quem
está no espectro é a leitura de emoções e sentimentos. Para compreender e lidar
com as situações, ele precisa aprender a ler sinais de emoção ou de sentimentos
das pessoas que os cercam. Além de entender estas emoções, necessita saber o
que deve fazer quando as percebe. Se sofre um preconceito, precisa aprender a
identificar e receber instruções sobre como lidar com cada situação. Quando
alguém usa tons mais altos de voz e está com determinadas feições mudadas, por
exemplo, o autista pode estar diante de uma situação de agressividade com ele.
Ele precisa ser orientado a permanecer calmo, explicar que tem dificuldade para
fazer tal coisa e apenas precisa que a pessoa lhe explique melhor ou perguntar
por qual motivo a pessoa está agindo daquela maneira para que ele possa
entender e ajudar. Para que a criança no espectro compreenda partes de
indícios sociais, especialmente os não verbais, pode ser interessante o uso de
fotos para explicar feições, pois o visual é importante para o autista.



 



TALENTOS



Existem
casos em que pessoas autistas ficaram conhecidas por sua inteligência acima da
média, comportamento autodidata, desenvolvimento de talentos especiais para
música ou grande facilidade com números. Neste caso, a família e a escola podem
estimular o aprimoramento da pessoa no espectro. Este é o caso do autismo leve
ou do tipo Asperger, comentado anteriormente. O autista consegue ter pouca, mas
alguma sociabilidade. Este tipo de autismo costuma ter focos durante a vida,
fixações. Geralmente o Asperger tem um interesse grande por um determinado tema
e se aprofunda demais nele, o que as outras pessoas identificam como
comportamento autodidata. Por se interessar e buscar informações para este
tema, acaba criando formas pessoais e extremamente estruturadas de estudo que
são muito interessantes de serem analisadas. Com isto, acabam tendo maior
facilidade de estudo, mas não quer dizer que serão bons em tudo. Acontece de
serem muito bons nas áreas de seu interesse, embora consigam lidar bem com as
demais.



 



A
família pode incentivar estimulando a criança com várias fontes diferentes onde
poderá encontrar informações sobre seu tema de interesse e também mostrar à
criança novos temas que podem ser relacionados. Desta forma, consegue ampliar
seu campo de interesse. A escola pode utilizar as estratégias de estudo criadas
pela criança para estudar também matérias que não estão no foco dessa criança.
Deve estimular seu convívio social, para que a criança possa ampliar
conhecimentos. Embora tenha dificuldade em se relacionar, as amizades também
são importantes para seu estímulo, porque podem aprender a partir do convívio,
trazendo novas informações para seu "mundo". Caso seja possível, é
interessante matricular a criança em cursos relacionados à sua área de
interesse maior, para que ela possa se desenvolver também com profissionais que
tenham maior conhecimento sobre o assunto.



 



Uma
equipe multidisciplinar, composta por vários profissionais que tenham
conhecimento das características do autismo, pode ajudar a família a lidar com
todas as particularidades do autista, inclusive os talentos natos.



 



FAMÍLIA,
CUIDADORES E QUALIDADE DE VIDA



Pais
e cuidadores devem compreender e aceitar que o indivíduo autista consegue aprender
e tem a possibilidade de se desenvolver, mas precisará de estímulos diferentes
das outras pessoas. As mais preciosas dicas são: leia muito sobre o assunto e
observe como o indivíduo se comporta. Observar como a pessoa no espectro
trabalha com rotinas pessoais é o que dá acesso à compreensão de seus
comportamentos. É importante salientar que, embora o autista não tenha um
comportamento social comum, ele tem dificuldade em lidar com situações nas
quais as pessoas fazem coisas que ele considera erradas. Conversar com o
autista, mesmo que ele não dialogue totalmente da forma como esperada, ajuda
muito a compreender os motivos pelos quais ele faz determinadas ações. Ele
sempre mostrará um comportamento que dará dicas de como lidar com as situações.



 



BEM-ESTAR
GARANTIDO



Existem
alguns indicadores de que educadores, família e cuidadores estão no caminho
certo para garantir o bem-estar da pessoa no espectro. É preciso sempre
incentivar suas habilidades, procurar não expor o indivíduo a situações sociais
nas quais ele não se sinta confortável (com o tempo, o autista aprende sozinho
a lidar com situações de exposição), conversar com ele sobre as situações que
percebemos ter gerado desconforto nele, procurar auxílio de profissionais que
possam ajudar na orientação de como lidar com o transtorno, não forçar
situações sociais que podem parecer comuns para pessoas fora do espectro (como
forçar a criança a cumprimentar estranhos em situações de exposição).



 



O
convívio familiar é também uma situação social. É um lugar de segurança para o
autista, no qual ele pode aprender sobre os comportamentos da vida social, mas
em menor escala. É preciso estimular as situações de conversa, deixando o
autista seguro em relação ao ambiente. Todos os familiares devem respeitar os
limites da criança autista e procurar compreender que terá respostas diferentes
dos demais membros da família para determinadas situações.



 



SEMPRE
A ROTINA



Ter
rotina ou fazer ações em etapas ajuda muito o autista tanto em casa quanto na
escola ou no trabalho. Criar rotinas para a criança dentro do ambiente familiar
ajuda-a a se sentir mais confortável, deixando-a mais tranquila e segura e
trazendo maior equilíbrio para o ambiente. A rotina é pessoal do autista, mas
deve ser construída ao longo da vida e para isto é interessante que os
familiares possam contribuir com as primeiras rotinas.



 



No
trabalho, não forçar situações sociais nas quais o autista não queira
participar e compreender que ele precisa sim das relações sociais na interação
com colegas, mas se mostrará mais calado com colegas com os quais não tem tanta
intimidade.



 



 



*
Designer de atividades pedagógicas, Janaína Spolidorio é formada em Letras, com pós-graduação em
consciência fonológica e tecnologias aplicadas à educação e MBA em Marketing
Digital. Ela atua no segmento educacional há mais de 20 anos e atualmente
desenvolve materiais pedagógicos digitais que complementam o ensino dos
professores em sala de aula, proporcionando uma melhor aprendizagem por parte
dos alunos e atua como influenciadora digital na formação dos profissionais
ligados à área de educação.

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