Eu, professor | Riobrasil Noticias
espanhol ingles portugues brasil alemao italiano Chines


Eu, professor

Eu, professor

14/10/2019 12:12:00 | Região Sul | Fonte: Jornal em Destaque







Por Daniel Medeiros



Comecei a dar aulas aos 18 anos de idade. Meus alunos,
em um supletivo de bairro, eram todos mais velhos que eu. Senti ali, pela
primeira vez, a urgência do conhecimento. Experiência eu não tinha, história de
vida também não. Aquelas pessoas, cansadas e sonolentas, se sentavam nas
carteiras estreitas e olhavam para mim à espera de algo. Não fazia sentido
aquelas horas sem dormir e sem jantar se não houvesse uma compensação à
altura.  Eu precisava, diariamente, refazer a conexão com eles,
apresentando algo que eles não viam no seu cotidiano, algo que nunca lhes
passou pela cabeça, algo que os despertasse da anestésica rotina dos seus
afazeres mal remunerados. E eu estudava e estudava para sempre ter uma história
suculenta para eles. Como o artesão que capricha na peça que será admirada;
como o agricultor que revolve e revolve a terra para dela tirar o fruto de
encher os olhos. Eu aprendia e eu ensinava. E assim eu aprendia o que devia
ensinar.  Eu era ponte, eu era isca, eu era o palhaço e o domador, o
atirador de facas, o malabarista. E, muitas vezes, eles saíam das aulas com os
olhos vermelhos de sono, cansaço, um breve sorriso, um balançar de cabeça. Eu
havia chegado a algum lugar deles. Eu estava ali. Eu sei.





Chegar a algum lugar deles era fácil de perceber.
Lembro-me de fazê-los descolar as costas das carteiras e quererem, com o olhar,
aproximarem-se de mim. Essa era a senha: quanto menos interessante é o que você
fala, mais o outro quer se distanciar. Mas quando há sumo, cheiro e mistério, a
vontade é de morder, é de beijar. E, nesses dias, eu saia da escola sabendo por
que aquela seria a minha profissão para sempre. Sentia-me gente, humano. E
aprendia que queria aprender mais e mais. Para repetir aquele momento. Como uma
droga, como um passe no terreiro, como uma benção alcançada.





Sou professor há 37 anos. E ainda hoje, vez por outra,
consigo fazer essa mágica, fruto de estudar e aprender e estudar e estudar. Sei
que não sou eu quem faz a mágica, é o conhecimento que carrego como um vaso
Ming. Não há tecnologia ou outro recurso didático que substitua a carne farta
de uma história contada em todos os seus detalhes, uma explicação longa e
consistente, uma demonstração calma e clara. O ser humano, mesmo acossado pela
grosseria do presente, pela força que desfaz as coisas belas, continua
encantado por uma história cheia de conhecimentos. Fazer sentido, perceber-se
entre as coisas que até pouco tempo eram estranhas e que agora acenam como
velhas amigas, realizar algo que era só sombra e medo cria laços que jamais
serão rompidos. Cada vez que consigo isso, realizo-me como professor. Como a
mente cartesiana que se fascina por conhecer-se, é no olhar de compreensão do
aluno que entendo o que faço.





Ser professor é carregar esse novelo de confiança e
responsabilidade. Como uma Ariadne, temos a chance de ajudar as crianças e
jovens a saírem do labirinto, matarem o Minotauro da ignorância que aniquila
com seu medo violento. Ser professor é ser um porta voz do conhecimento de
outros seres humanos, uma ponte que conecta os saberes em uma corrente que
mantém os monstros dogmáticos à distância.





Sempre vivemos em guerra, sempre estamos no front. Assumir essa
tarefa de ser professor é saber que não haverá o momento do "descanso pra
valer" e que sempre o conhecimento precisará ser cultivado e entregue em
outras mãos. Como uma espécie de herói melancólico, a vida pessoal de um
professor não tem a importância de seu trabalho e ele está sempre à espera de
um chamado. E o professor é assim porque quer ser assim. Cansado, mas sem
preguiça. Pesaroso, mas nunca desesperançado. Porque o labirinto precisa ser
percorrido e o Minotauro precisa ser morto muitas vezes, ou as crianças e
jovens viverão para servir de alimento para os tiranos insaciáveis.





Daniel Medeiros é Doutor em Educação
Histórica pela UFPR e professor no Curso Positivo.

Continue lendo em jornalemdestaque

Compartilhe!




QR Code: