*Fernanda Zacharewicz
Sou do tipo
que dorme cedo e moro em um bairro super silencioso. O silêncio reinava na
noite de ontem, como sempre. Já estava na cama quando resolvi dar uma última
olhada no Facebook e vi as diversas postagens sobre o pronunciamento do
presidente Jair Bolsonaro. Faço questão de usar aqui o título que esse
ex-parlamentar adquiriu através do voto, em eleições diretas, o direito de
usar.
Não fui eu
quem o outorgou, mas foi minha vizinha, os pais dos colegas das minhas filhas,
alguns de meus familiares e aqueles que hoje se assustam com as afirmações do
candidato que escolheram. Agora eu me pergunto: isso já não estava anunciado? O
pronunciamento da noite do dia 24 de março de 2020, em plena crise do Covid-19,
surpreende alguém?
Segunda-feira
assisti ao filme “A vida é Bela”, de Roberto Benigni, ganhador do Oscar de
melhor filme estrangeiro em 1999. Havia assistido quando foi lançado. Odiei,
achei de uma idiotice tamanha que nem conseguia pensar a respeito. Agora, em
tempos de quarentena, lembrei dele e decidi assistir novamente. E uma outra
cena me tomou.
Guido, o
personagem principal, é judeu e trabalha como garçom em um hotel luxuoso na
Itália pré Segunda Guerra. Há um hóspede médico a quem ele serve e com quem
estabelece algum laço de camaradagem baseado nas adivinhas de linguagem que
costumam trocar. Passam alguns anos e já prisioneiro do campo de concentração,
o protagonista reencontra esse médico que agora serve ao exército nazista. Com
o esforço de Guido, o médico o reconhece e o convoca a servir no jantar de oficiais.
Em dado momento, os dois se encontram em um local que não podem ser ouvidos
pelos outros e Guido tenta pedir socorro. O médico, com as feições muito
abaladas, quase aterrorizado, pede a ajuda de Guido para decifrar um enigma que
não logra desvelar.
Suponho que
naquele momento Guido se deu conta que sua vida não tinha algum valor para esse
sujeito. Isso fica claro também na fala de Bolsonaro. Lembrei de um trecho de
“Eichmann em Jerusalém”: “Nunca matei um judeu, nem um não-judeu – nunca matei
nenhum ser humano. Nunca dei ordem para matar fosse um judeu, fosse um
não-judeu; simplesmente não fiz isso”².
Eichmann,
alegando-se sionista, no início queria o evacuamento do povo judeu. Para isso
não planejava a construção de rodovias, mas “tudo o que eu queria e planejava
fazer, o destino impedia de alguma forma. Eu ficava frustrado com tudo,
absolutamente tudo”³. E que ingênuos são os que pensaram que alguma frustração
no planejamento executado por Eichmann poderia trazer algum alívio aos judeus!
Todo o contrário, a segunda etapa, foi a opção pelo extermínio.
Será que aí
também são antecipadas as consequências das diversas vezes em que Bolsonaro
“volta atrás” de suas declarações? O pronunciamento da noite de 24 de março de
2020 aponta, sem dúvidas, para o genocídio do povo brasileiro.
Desvio-me do
objetivo de minha escrita nessa manhã. Volto ao filme “A vida é bela”. Guido
faz do tempo de confinamento um grande jogo para seu filho pequeno. Mas, longe
de posicionar-se do lado da paixão pela ignorância, sabe fazer com o que se
apresenta. Ensina o filho a se esconder, o que o mantém vivo até a chegada dos
aliados. Com isso retorna-me a pergunta: qual a parte que me cabe nesse
momento? Cabe a mim, enquanto psicanalista e editora escutar aos que me
procuram, escrever e publicar. Como mãe, devo acordar as minhas filhas e ajudar
nas tarefas escolares, nos exercícios diários, escutá-las e protegê-las.
Minha filha
menor acorda, insiste em vestir o uniforme da escola e após o café, inicia seus
afazeres. Sabem qual sua primeira tarefa? Recitar o poema diário “Eu contemplo
o mundo/ Onde o sol reluz...”. Isso me acalenta o coração. Ela me ensina,
talvez um pouco como Guido, que manteremos a vida, ainda que não tão bela
assim.