Jair Bolsonaro disse à assembleia geral das Nações Unidas que foi lá para apresentar um novo Brasil, com sua credibilidade restaurada perante o mundo. Mas, em seu discurso de 12 minutos de duração, o que o presidente - populista de extrema direita que pregou remédios não comprovados da Covid, denunciou medidas de contenção do coronavírus e propagou uma sucessão de distorções e mentiras descaradas sobre a política brasileira e o meio ambiente - fez foi pouco para reparar a reputação internacional do País.
Se Bolsonaro foi chacota lá fora, aqui no Brasil ele provocou revolta.
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É revoltante e vergonhoso ver esse tipo de presidente fazer um discurso tão cheio de mentiras no cenário internacional”, lamentou a deputada federal Vivi Reis, após assistir ao discurso do presidente. “Esse tipo de homem não deveria representar nosso país - um país tão rico em biodiversidade, cultura, trabalhadores e juventude”.
Antes do discurso de abertura de Bolsonaro, alguns diplomatas brasileiros esperavam que seu presidente mostrasse uma face mais suave para o mundo do que durante sua última aparição pessoal na ONU. Naquela ocasião, em setembro de 2019, o novo líder do Brasil acusou a mídia "fraudulenta" de exagerar na destruição da Amazônia e lançou uma escoriação do socialismo ao estilo Donald Trump. Mas, essas esperanças de moderação evaporaram segundos depois de Bolsonaro subir ao parlatório e anunciar que tinha vindo “para mostrar um Brasil diferente daquele que você vê nos jornais e na TV”, e, novamente, atacou a suposta ameaça do socialismo.
Não tivemos um único caso concreto de corrupção durante [os] dois anos e oito meses [de minha presidência]”, afirmou Bolsonaro, incorretamente, esquecendo-se de mencionar uma série de escândalos que perseguem sua família e o governo, inclusive sobre a compra de vacinas...
Bolsonaro insistiu que seu governo há muito defende a vacinação da Covid, embora ele tenha minado pessoalmente os esforços para imunizar os cidadãos contra uma doença que matou quase 600 mil brasileiros e supostamente se recusou a receber uma injeção.
Na segunda-feira, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, e Boris Johnson incitaram publicamente Bolsonaro por não ter se vacinado, com Blasio dizendo ao presidente do Brasil que não deveria ter se incomodado em visitar sem antes se imunizar.
Em seu discurso, Bolsonaro também alardeava o apoio de seu governo aos remédios ineficazes da Covid - conhecidos como “tratamento precoce” - apesar da oposição generalizada das comunidades científicas e médicas globais.
Não entendemos por que muitos países - junto com grande parte da mídia - se opuseram ao ‘tratamento precoce’”, disse Bolsonaro aos líderes mundiais, anunciando que ele próprio havia tomado essas drogas.
A história e a ciência saberão como cobrar de todos”, acrescentou o presidente - uma previsão que o crescente número de adversários políticos de Bolsonaro espera que aconteça!
Em outra parte de seu discurso, o líder do Brasil afirmou falsamente que as recentes manifestações pró-Bolsonaro do Dia da Independência foram as maiores da história brasileira e apresentou um quadro incredível da economia brasileira e dos esforços de proteção ambiental.
Qual outro país do mundo tem uma política de proteção ambiental como a nossa?”, perguntou Bolsonaro, que foi acusado de encorajar crimes ambientais e sob o qual o desmatamento atingiu seu pico em 12 anos.
Marcio Astrini, diretor executivo do Observatório do Clima, um grupo de ONGs ambientais, disse que Bolsonaro escolheu a dedo e distorceu as estatísticas na tentativa de defender seu indefensável histórico ambiental de destruição e impunidade.
Isso simplesmente não é verdade - é uma mentira”, disse Astrini sobre a alegação de Bolsonaro de que 84% da floresta amazônica estava intacta. “Alguém inventa esses números e o presidente os repete”.
Astrini duvidou que a comunidade internacional aceitaria a tentativa de Bolsonaro de retratar o Brasil como um "paraíso ambiental" antes da cúpula do clima Cop26, em Glasgow.
Neste ponto, a única coisa que o mundo poderia ouvir de Bolsonaro e pensar que poderia levar a uma melhoria, seria se Bolsonaro anunciasse sua renúncia...", disse Astrini. “Sabemos que ele diz uma coisa e no Brasil está fazendo algo totalmente diferente”.
A deputada federal pelo estado do Pará, disse ainda que não reconheceu o Brasil descrito por Bolsonaro quando olha em volta e vê aumento da inflação, desemprego, devastação ambiental, ataques a comunidades indígenas e centenas de milhares de mortes de Covid.
O Brasil não merece isso. Os brasileiros não merecem isso”, disse ela, exortando os oponentes de Bolsonaro a se unirem nas ruas em 2 de outubro para a próxima rodada de manifestações pró-impeachment.
(Foto: Eduardo Muñoz/AP)